Maria das Mercês Luiz de Queiroz

Miriam bat Yosef HaLevi (מרים בת יוסף הלוי) · Educadora judaica brasileira, nascida em Brasília de Minas (meados do século XX)

Maria das Mercês Luiz de Queiroz (século XX), de nome judaico Miriam bat Yosef HaLevi (מרים בת יוסף הלוי), foi uma educadora judaica brasileira, nascida em Brasília de Minas, no norte de Minas Gerais, filha de José Luiz de Queiroz e de Emiliana Maria das Mercês. Desde cedo tomou parte nas travessias regulares que a família empreendia entre o Brasil e Portugal, viagens nas quais acompanhava o pai no encaminhamento de famílias judias que emigravam para o interior mineiro. Foi em uma dessas estadas que se casou com Egídio Rodrigues Batista — de nome judaico Gideon HaKohen (גדעון הכהן), filho de Mordechai HaKohen, da família Katz — em Lisboa, em 15 de Elul de 5698 (setembro de 1938), na mesma data hebraica do casamento de seus pais, vinte e oito anos antes; a cerimônia ficou registrada em ketubá lavrada naquela cidade, reproduzida abaixo. Regressou ao Brasil no ano seguinte.

De volta ao interior mineiro, somou-se ao trabalho que o pai conduzia junto às famílias judaicas da região e dedicou-se à educação de suas crianças. Fundou cheders — classes elementares tradicionais de instrução judaica — em sua própria casa e ia de casa em casa ensinando às crianças as rezas e o uso do sidur, sustentando a instrução religiosa entre famílias dispersas ao longo das rotas de mascateação. É lembrada como uma das primeiras morót — professoras de judaísmo — atuantes no Brasil.

Seu trabalho insere-se em um contexto no qual as instituições judaicas formais ainda não haviam alcançado o interior de Minas Gerais. As comunidades que se formavam em torno do comércio ambulante não dispunham de sinagogas, escolas ou rabinos residentes, e a transmissão do conhecimento religioso dependia da casa: do cheder mantido na sala de uma família e da professora que batia à porta. Em comunidades dispersas dessa natureza, essa tarefa recaía em grande parte sobre as mulheres, e a figura da morá — que ensinava às crianças as primeiras rezas e as primeiras letras hebraicas — era muitas vezes o único fio a ligar uma nova geração nascida no Brasil à prática de seus pais. Seu magistério complementava, assim, a absorção econômica oferecida pela rede de comerciantes com aquilo que ela, por si só, não podia prover: a continuidade religiosa e cultural.

Documentos

Ketubá de Egídio Rodrigues Batista e Maria das Mercês Luiz de Queiroz, Lisboa, 1938. Documento em domínio público.
Ketubá de Egídio Rodrigues Batista e Maria das Mercês Luiz de Queiroz, Lisboa, 1938. Documento em domínio público. · fonte